Em meio a mais um dia de plantão de
24 horas, durante o período da madrugada, uma senhora franzina e educada chegou
na Delegacia perguntando se podíamos ajudá-la. Solícito como sempre devo e
busco ser, respondi a indagação da mulher: “- É claro, o que posso fazer pela
senhora?”. E ela descarregou em palavras toda a situação de brigas, confusões e
desentendimentos que tinha com o marido que bebia demais... E mais uma vez ouvi
a corriqueira história de mulheres que sofrem e apanham de seus maridos e
companheiros. Nesse momento deixo elas desabafarem, sei que assim já se sentem
melhor e elas, mulheres, falam, falam, falam (o dicionário amazonês aconselha a
repetir uma palavra três vezes para frisar algo que dissemos...).
Depois de falar, falar, falar eu
expliquei o que, enquanto policial, eu poderia fazer: faríamos o registro
através do Boletim de Ocorrência; o escrivão abriria o inquérito, pegaria seu
depoimento e já pediria uma Medida Protetiva para o Juiz; encaminharíamos ela pra
fazer exame de corpo de delito, devido ao espancamento e por fim, prenderíamos
o marido, que ficaria na Delegacia aguardando decisão judicial. Na hora em que
finalizei os procedimentos com a bendita frase “prenderíamos o marido, que
ficaria na Delegacia aguardando decisão judicial”, a mulher deu um pulo com os
olhos arregalados e bradou “- Não, seu policial, prender meu marido não! Eu só
queria que vocês dessem um susto nele”. Indignado, como costumo ficar nessas
situações em que vejo mulheres se sujeitando a violência doméstica, não resisti
e respondi “- Mas eu sou policial, não sou fantasma, minha senhora!”. Ela se
mandou e nunca mais a vi.

